Optei por percorrer a avenida enquanto retornava à minha casa, afinal, era um caminho mais movimentado e com melhor iluminação. E outra: a tarde caía e o medo de andar na rua à noite, mesmo sendo no início dela, fez com que eu desistisse das alternativas pacatas de estrada.
Faltava uma única quadra para chegar ao destino, quando avistei um andarilho. Perneta, permaneceu parado, muleta no chão. Ele balançava a cabeça em movimentos sincrônicos - esquerda, direita, esquerda, direita - de modo que pude observá-lo a escovar os dentes, de costas para um pessoal que esperava o ônibus e de frente para um outdoor de vidro que parecia estar sendo utilizado como espelho pelo mendigo.
Um pobre homem escovando os dentes. Longe de ser arte contemporânea para contemplação, mas se eu tivesse em mãos uma câmera, naquele momento teria fotografado a imagem dessa tentativa de humanização em contradição à propaganda do painel envidraçado cuja imagem era formada por um lindo e luxuoso carro importado.
O luxo e o lixo, um encarando o outro.
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